em

Do Golpe ao caos

Nada mudou no Brasil desde que Bolsonaro assumiu o poder. Sua agenda econômica neoliberal não funciona e nunca vai funcionar porque só beneficia os ricos

17/04/2016 - Brasília- DF, Brasil- Sessão especial para votação do parecer do dep. Jovair Arantes (PTB-GO), aprovado em comissão especial, que recomenda a abertura do processo de impeachment da presidente da República. Foto: Antonio Augusto/ Câmara dos Deputados

Antes de ir ao ponto, quero fazer apenas uma breve reflexão:

Muita coisa mudou no Brasil desde a invasão portuguesa em 1500, e o período de colonização, independência e proclamação da República. Entre vários pontos positivos e negativos tem a velha política que continua a mesma sempre favorecendo a elite burguesa. Quem já estudou a história do Brasil sabe que em determinadas épocas houve avanços no combate à desigualdade social, mas nenhum governo ficou livre de escândalos de corrupção, até mesmo porque na política sempre haverá o jogo de interesses pessoais e a elite não gosta de políticas sociais. Sempre que surge um político com ideias favorecedoras aos mais pobres ele é visto como perigoso ou ameaça.

Um exemplo disso foi Getúlio Vargas que apesar de ter sido um ditador e ter cometido muitas atrocidades, seu governo beneficiou a classe mais pobre e trabalhadora criando leis trabalhistas e políticas sociais, que de fato incomodou os mais ricos e os opositores. Diante de vários acontecimentos e pressões, Vargas acabou se suicidando. João Goulart foi outro político vítima da elite por ter pensamentos alinhados ao socialismo. Ele assumiu a presidência da República em 1961 depois que Jânio Quadros renunciou (era vice da chapa) e permaneceu no cargo até 1 de abril de 1964, quando foi deposto pelo Golpe Militar.

Na época, o Comunismo avançava com a União Soviética e o regime tinha se instaurado em Cuba, então diante desses acontecimentos qualquer pessoa simpatizante de esquerda era vista como ameaça pelos militares. E o Exército brasileiro influenciado pelos Estados Unidos (câncer do mundo) interrompeu o governo de João Goulart alegando que foi preciso intervir para evitar a instauração do comunismo no Brasil o que de fato, estava longe de acontecer.

Agora sim, podemos ir ao ponto

No dia 17 de abril de 2016 ocorreu outro golpe no Brasil. O governo da presidenta Dilma Rousseff (PT) foi interrompido e, desta vez, com a ajuda do judiciário. Tudo começou em 2014 quando o derrotado Aécio Neves (PSDB) (que é réu no caso em que é acusado de receber 2 milhões de reais em propina da JBS) inconformado por ter perdido a eleição solicitou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a recontagem dos votos, alegando que houve fraude eleitoral. O TSE atendeu seu pedido e provou que não houve fraude, mas Aécio ainda não estava satisfeito e partiu para o tudo ou nada com seus aliados para derrubar a presidenta Dilma, provocando crise política no governo que foi a base para o surgimento de movimentos neofascistas como o Movimento Brasil Livre (MBL) e Vem pra Rua, ambos se apoiaram na crise política gerada pela oposição, ganhando força nas ruas com o discurso anticorrupção.

A então presidenta Dilma Rousseff (PT) foi perdendo sua popularidade a cada dia e também o apoio da maioria dos deputados e no dia 12 de dezembro de 2015, o então presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (condenado e preso por corrupção), por motivos pessoais autorizou a abertura do processo de impeachment, dando continuidade ao processo do golpe liderado por Aécio Neves com participação de segmentos do mercado financeiro, do judiciário e da mídia. O desfecho ocorreu no dia 17 de abril de 2016 conforme já foi mencionado e no dia 31 de agosto, Michel Temer (MDB) assume a presidência da República.

O golpe resultou numa calamidade econômica e social sem precedentes para o Brasil e, em seguida, na eleição de Bolsonaro. Direitos históricos do povo estão sendo aniquilados. Avanços civilizatórios alcançados no período democrático que sucedeu à ditadura militar vão sendo dilapidados. Conquistas fundamentais obtidas nos governos do PT passaram a ser revogadas. Este processo radicalizou-se com um governo agressivamente neoliberal na economia e perversamente ultraconservador nos costumes. Um governo com uma inequívoca índole neofascista.

Ex-presidenta Dilma Rousseff (trecho do artigo publicado no Brasil de Fato)

Os movimentos MBL e Vem pra Rua foram os principais protagonistas da queda da popularidade da presidenta Dilma Rousseff e do seu impeachment. Os fascistas exploravam uma nova tecnologia até então desconhecida ou não muito popular: as redes sociais. Através delas, eles conseguiam reunir seguidores, atingir o público-alvo e fazer lavagem cerebral nos internautas com os desfechos da Lava Jato que perseguia o PT e o Lula criminalizando ambos sem provas através de procuradores e juízes partidários que não seguiam o processo legal conforme foi denunciado em série de reportagens pelo The Intercept. A farsa da Lava Jato condenou e prendeu o Lula para garantir a eleição de Jair Bolsonaro em 2018.

A relação mídia-Lava Jato permitiu que a imprensa se transformasse na 4ª instância do Judiciário, só tratando de condenar sem direito de defesa. A lógica política dessa relação está focada na destruição e criminalização do PT – em especial de Lula – e, para isso, utilizaram vazamentos às vésperas das eleições, delações sem provas, desrespeito ao devido processo legal e ao direito de defesa.

Ex-presidenta Dilma Rousseff (trecho do artigo publicado no Brasil de Fato)

Com o caminho livre sem o Lula, já garantido pelo então juiz federal Sergio Moro e com a moral do PT em baixa por razões citadas anteriormente, Bolsonaro vence as eleições com ajuda de fake news espalhadas pelo seu próprio clã (seus filhos) e parte da elite brasileira (banqueiros, empresários, líderes evangélicos, ruralistas entre outros) num processo atidemocrático e vergonhoso. (Por mais que tenha parecido uma eleição democrática, dentro da legalidade, Bolsonaro se beneficiou de forma ilegal das ferramentas disponíveis na internet conforme reportagem do El País, além de outros crimes eleitorais acobertados pelo TSE que até o momento não fez nada). Claro que tudo fazia parte do esquema para interromper o progresso da esquerda no país.

Depois de eleito, Bolsonaro chama Sergio Moro para lhe recompensar por ter eliminado o seu maior obstáculo político, garantiu carta branca e Moro aceitou o convite para comandar o Ministério da Justiça provando que uma mão lava a outra. Porém, no dia 24 de abril, Moro deixa o governo e acusa Bolsonaro de tentar interferir nas investigações da Polícia Federal: “O presidente me disse mais de uma vez, expressamente, que queria ter uma pessoa do contato pessoal dele, que ele pudesse ligar, que ele pudesse colher informações, que ele pudesse colher relatórios de inteligência, seja o diretor, seja superintendente… E, realmente, não é o papel da Polícia Federal prestar esse tipo de informação”, disse no Palácio da Justiça, em pronunciamento a respeito de sua demissão.

A saída de Moro complicou ainda mais a situação de Bolsonaro que já não era boa. Há 26 pedidos de impeachment protocolados na Câmara devido irresponsabilidades, improbidade administrativa e crimes praticados por não estar à altura do cargo no qual ocupa. Além disso, vem perdendo apoio de aliados após os escândalos de corrupção envolvendo seus filhos, atitudes autoritárias, utilizando o poder público para satisfazer seus interesses particulares e principalmente pela falta de comprometimento no combate à pandemia do novo coronavírus (Covid-19), que é um problema mundial e pode piorar ainda mais no Brasil se não for tomada medidas urgentes.

Nada mudou no Brasil desde que Bolsonaro assumiu o poder. Sua agenda econômica neoliberal não funciona e nunca vai funcionar porque só beneficia os ricos. Sua velha política ideológica, suas mentiras e hipocrisia faz sua fama aumentar a cada dia no Brasil e no mundo: um verdadeiro palhaço!

Diante do caos, os movimentos fascistas que o elegeu presidente, estão usando as mesmas ferramentas nas redes sociais defendendo seu impeachment. Agora que a verdade “Bolsonaro foi um erro” veio à tona, agora que o barco está afundando, todos querem se salvar.

No caso do MBL talvez nem tenha sido um erro se levar em consideração que seus integrantes o deputado Kim Kataguiri (DEM) e o vereador Fernando Holiday (DEM) se elegeram através do apoio ao Bolsonaro. Outras pessoas também usaram as mesmas estrategias, sendo que algumas delas se tornaram desafeto de Bolsonaro. Mas para quem estava iludido e agora acordou também foi um erro e principalmente para o Aécio Neves que esperava ele mesmo ser eleito ou outro de sua base política e não Bolsonaro.

Hoje o Brasil vive um caos não só por causa da crise sanitária, mas também pelas estupidez e atrocidades de Bolsonaro que com sua política ideológica, juntamente com seus ministros sem noção, promovem desunião e crise entre poderes, além de incentivar a violência contra a imprensa e atacar diversas entidades. O cara não sabe governar e quer fazer da Presidência da República sua família. Não foi útil quando deputado, porque seria como presidente?

O golpe não reduziu o preço do dólar, não acabou com a corrupção, não gerou empregos, apenas piorou a crise provocada pela oposição. O Brasil segue em luto, em crise e com a velha política: jogo de interesses pessoais, corrupção, interferências, abuso de poder… etc, etc e etc.

17/04/2016 - Brasília- DF, Brasil- Sessão especial para votação do parecer do dep. Jovair Arantes (PTB-GO), aprovado em comissão especial, que recomenda a abertura do processo de impeachment da presidente da República. Foto: Antonio Augusto/ Câmara dos Deputados
17/04/2016 – Brasília- DF, Brasil – Sessão especial para votação do parecer do dep. Jovair Arantes (PTB-GO), aprovado em comissão especial, que recomenda a abertura do processo de impeachment da presidente da República. Foto: Antonio Augusto/ Câmara dos Deputados

Adamy Gianinni

Jornalista, empresário, blogueiro, fotógrafo, universitário, profissional de TI e Flamenguista ❤. Apaixonado por mídia, fotografia e tecnologia, CEO da Seutec Inc. e editor-chefe da Folha Geral.
contato@adamy.jor.br / adamy@folhageral.com.br

Deixe sua opinião

Bolsonaro durante ato criminoso, em Brasília (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

Manifestantes usam a liberdade de se manifestar em troca de uma Ditadura

(Imagem ilustrativa/Pixabay)

Covid-19: o lucro acima da vida